
Um paraíso verde, permeado pela abundância de rios caudalosos, que esconde riquezas ainda desconhecidas dos estudiosos. Suas florestas com árvores gigantescas localizadas em áreas ainda não exploradas pelo homem aguçam a curiosidade estimulando a imaginação das mentes mais férteis originando as populares crendices.
Ph.D. Fabiana Filardi
Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro
Nem sempre nos damos conta, mas todas as formas de vida (inclusive a nossa!) dependem direta ou indiretamente das plantas. A vida no nosso planeta surgiu de um agregado de poeira e gases girando em órbita em torno do sol há bilhões de anos atrás, mas a diversidade que conhecemos hoje só foi possível após o estabelecimento das plantas, que são capazes de realizar fotossíntese. Este incrível processo bioquímico, que produz açúcares e libera Oxigênio, a partir de água, CO2 e energia solar, foi responsável pela modificação da atmosfera da Terra, propiciando o estabelecimento de seres vivos mais complexos, formados por células organizadas em tecidos e órgãos (como o nosso corpo!).
Mas mesmo sem conhecer todo este longo e antigo caminho evolutivo e a importância das plantas como a base da pirâmide da vida, qualquer um de nós é capaz de se impressionar em uma floresta, com a imponência de grandes árvores, beleza de flores e diferentes sabores de frutos e sementes. As florestas tropicais úmidas ocorrem em áreas de muita chuva (acima de 1.500mm/ano) e atualmente a maior extensão dessas florestas ocorre na bacia do rio Amazonas. A diversidade encontrada nesses locais é a maior do planeta, com até 300 espécies de árvores por hectare (10.000m2), número maior do que todas as espécies de árvores conhecidas para o continente europeu. Além destas árvores, outras espécies de plantas herbáceas, arbustos, cipós e epífitas (como algumas espécies de Bromélias e Orquídeas), dentre outras, também sustentam milhares de espécies de animais e de fungos na região amazônica. Até o momento são listadas aproximadamente 14.000 espécies vegetais para a Amazônia, mas devido à extensão do bioma e particularidades de seu relevo, que apresenta áreas montanhosas, áreas de várzea sujeitas a inundações periódicas e rios caudalosos, este número é reconhecidamente menor do que o real e a intensificação de estudos botânicos específicos sobre esta flora é necessária.
A região amazônica compreende cerca de sete milhões de km2 e pode ser delimitada pelas bacias hidrográficas dos rios que desembocam no rio Amazonas e na sua foz, na costa leste do Brasil, incluindo todos os estados da Região Norte (além de parte dos estados do Maranhão e do Mato Grosso) e grande parte dos países vizinhos, entre a Bolívia e as Guianas. A formação da bacia amazônica é muito mais antiga do que as plantas que hoje ocupam esta região e teve início quando a América do Sul e a África ainda formavam um único continente, há cerca de dois bilhões de anos. Quando a América do Sul começou a se separar da África, os rios da parte oeste da bacia amazônica corriam em direção ao oceano Pacífico, enquanto que os da parte leste desaguavam no novo oceano Atlântico que se formava. Contudo, a bacia amazônica atual começou a se estabelecer somente após o soerguimento dos Andes e a completa separação entre os dois continentes, com o rio Amazonas passando a apresentar a sua drenagem atual, de oeste para leste.
O primeiro navegador europeu que se aventurou pelo rio Amazonas, o maior do mundo em extensão e volume d’água, foi o espanhol Francisco Orellana, em 1542, que divulgou a lenda que deu nome a essas terras. Segundo os relatos obtidos da sua expedição, que durou cerca de um ano, a região era habitada por amazonas, guerreiras que possuíam tesouros fabulosos escondidos na floresta e que nunca foram encontrados. A Amazônia permaneceu em paz durante muito tempo, sendo habitada apenas pelos povos da floresta, que viviam em perfeito equilíbrio com a flora e fauna nativas e guardavam os tesouros das amazonas guerreiras. Porém, a natureza exuberante desta região do Brasil foi reconhecida como uma barreira para o progresso do país e a sua “conquista” foi adotada como propaganda do governo ditatorial militar a partir de 1970, tendo como exemplo a construção da Transamazônica, estrada que pretendia cortar a floresta e que até hoje permanece inacabada. Mais de seis milhões de hectares de floresta nativa foram desapropriados para a (tentativa de) construção da Transamazônica e, a partir disso, houve a intensificação da extração de madeira ilegal e do desmatamento, principalmente para a criação de gado e plantações de soja.
Felizmente, parte da exuberância da Amazônia brasileira está protegida em 10 Parques Nacionais (PARNA), que reúnem mais de 8.600.000 hectares e, apesar da maioria dessas Unidades de Conservação não serem abertas à visitação pública, o PARNA do Araguaia (no estado do Tocantins) e o PARNA do Jaú (no estado do Amazonas) estão abertos à visitação e oferecem a oportunidade para que qualquer um de nós (humanos que precisam das plantas!) possa vivenciar a beleza e a força da Amazônia brasileira.



